Há mais coisas em nosso corpo que aquilo que os olhos, as radiografias e as ressonâncias podem ver. Exemplo disso é a delicada e sutil rede de energia que se estende por todo nosso corpo, logo abaixo da superfície da pele, unindo os órgãos e sistemas que nos mantêm vivos.
Os chineses chamam essa energia de Qi, a energia da vida; os ocidentais ainda não deram um nome a ela. Mas todos concordam que a acupuntura tem o poder de equilibrá-la, corrigindo e prevenindo possíveis curto-circuitos.
A milenar técnica chinesa consegue, de maneira natural e com menos efeitos colaterais que os tratamentos médicos ocidentais, combater a dor e os desequilíbrios orgânicos, fazendo o corpo funcionar melhor, de forma saudável.
Para quem corre ou pratica esportes que envolvem movimentos repetitivos, a acupuntura é uma alternativa de tratamento da dor causada por processos inflamatórios e lesões de ligamentos, músculos e tendões. Ela também tem eficiência comprovada no alívio da fadiga de fases muito intensas de treinamento. “A acupuntura é indicada no tratamento de lesões crônicas como tendinites e lombalgias, e em lesões musculares como estiramentos”, diz Paulo Barone, ortopedista especializado em traumatologia esportiva e cirurgia do joelho e diretor do SportsLab. “Como cada vez mais gente está correndo e quem corre está aumentando cada vez mais a quilometragem, essas lesões têm se tornado comuns. A acupuntura permite tratá-las sem que o corredor tenha de tomar medicamentos por muito tempo”, diz. Em lesões mais graves, como fraturas por estresse, a técnica chinesa tem efeito limitado.
Agulhas no laboratório.
Num estudo feito por pesquisadores da Universidade de Tóquio e publicado no Medical & Science in Sports & Exercise em 2003, foi comprovado que a acupuntura afeta a resposta imunológica e a produção de endorfinas, hormônios liberados pelo nosso cérebro para combater a dor e trazer sensações de bem-estar e conforto. Os cientistas acompanharam um time de elite de futebol feminino em fase de competições. As jogadoras foram divididas em dois grupos: um recebeu o tratamento de acupuntura e o outro serviu como grupo de controle. O grupo tratado recebeu aplicações quatro horas depois de cada jogo, por 15 a 20 minutos, e apresentou inibição da produção de cortisol (o hormônio do estresse) pós-exercício e menor percepção de fadiga e tensão muscular. Em um outro estudo feito com ratos na Faculdade de Medicina Oriental de Seoul e publicado em 2002 no Neuroscience Letter, foram investigados os efeitos da acupuntura na resistência em corrida na esteira. O tempo que os ratinhos levaram para chegar à exaustão aumentou significativamente depois das aplicações de acupuntura.
“Quando uma pessoa está com dor por causa de uma tendinite, por exemplo, é sinal de que fez muito esforço repetitivo e a energia dela se acumulou naquela região, inflamando-a. A agulha dispersa a energia e diminui a inflamação e a dor”, explica Alberto M. Minami, técnico em reabilitação especializado em acupuntura e quiropraxia, que há 15 anos aplica a técnica que aprendeu com um professor da Universidade de Osaka, no Japão. Alberto representa a linha mais oriental da acupuntura: ele faz o diagnóstico através do pulso e trabalha para equilibrar as energias ying(negativa) e yang(positiva). “Se sua energia estiver bem equilibrada, você estará sempre de bem com a vida. A acupuntura equilibra o corpo e a alma”, afirma.
A energia dos corredores
A acupuntura é particularmente eficaz em alguns problemas comuns aos corredores, como as dores na região lombar (lombalgias), as canelites e as tendinites de joelho e de Aquiles (tendinites calcâneas). Como mostrou a pesquisa de Tóquio, a acupuntura estimula o corpo a produzir esteróides e endorfinas. Os esteróides diminuem a inflamação, enquanto as endorfinas diminuem a dor. Assim, ela funciona como um analgésico natural. “Os medicamentos analgésicos utilizados indiscriminadamente podem mascarar a dor sem eliminar a inflamação e levar à falsa sensação de cura. Já a acupuntura produz alívio da dor e ainda estimula o corpo a reagir à inflamação”, explica Liaw W. Chao, médico cirurgião formado pela Faculdade de Medicina da USP, especializado em medicina esportiva e em acupuntura, que atende em seu consultório atletas das assessorias esportivas Run & Fun, MPR, Run For Life e Saúde & Performance, entre outras. “A acupuntura cria condições para o corredor voltar ao esporte, tirando a dor e a inflamação para que ele consiga fazer o trabalho de reabilitação. Além do efeito analgésico e antiinflamatório, ela melhora a circulação de sangue no local, ajuda a recuperar a mobilidade e a tratar as regiões que são secundariamente comprometidas na lesão”, diz. “É imprescindível procurar um médico para fazer o diagnostico e um médico acupunturista para o tratamento”, diz Ruy
Yukimatsu Tanigawa, médico especialista em acuputura.
Direto ao ponto
Médicos chineses listaram 12 meridianos principais de energia no corpo, ( veja abaixo) dois meridianos secundários e mais de 500 pontos de acupuntura ao longo dessas linhas. Robert Becker, ortopedista americano pioneiro nas pesquisas sobre a utilização de campos elétricos em regeneração tecidual, comparou os meridianos a linhas de transmissão como as dos telefones celulares. O sinal é transmitido ponto a ponto ao longo do meridiano, sendo que diminui ao se distanciar do ponto anterior, mas se amplifica ao chegar perto do ponto seguinte. Em caso de “panes” ou enfraquecimentos na transmissão do sinal, os “técnicos” reparam o problema nas antenas que servem de base para
toda a rede.
Existem diferentes maneiras de estimular nossas “antenas” internas para obter o efeito desejado. As mais usadas são:
:: Agulhas
As agulhas de acupuntura, extremamente finas, são aplicadas nos pontos a serem estimulados. Esse estímulo é transmitido pelas terminações nervosas até o sistema nervoso central, induzindo a liberação de substâncias analgésicas e antiinflamatórias. As agulhas ficam cerca de 20 minutos no local.
:: Acupuntura auricular
Nossas orelhas têm mais de 100 pontos reflexos relacionados aos nossos órgãos e sistemas. A acupuntura auricular estimula-os com pequenas agulhas, que são aplicadas nas orelhas e deixadas por até sete dias.
:: Moxabustão
Na moxabustão, os pontos de acupuntura são estimulados pelo calor da queima de uma erva, a artemísia. Essa técnica é mais indicada para aumentar a circulação de sangue e de energia no local. “Se a região estiver muito inflamada, não dá para aplicar calor. Ela é mais indicada para gripes e dores de cabeça”, diz Alberto. A moxabustão também pode ser usada junto com as agulhas. “Colocam-se as agulhas e a moxa em cima, assim o calor entra pelo canal aberto pela agulha e vai fundo”, explica.
:: Eletroacupuntura
A eletroacupuntura começou a ser usada na China na década de 60 para diminuir a dor em procedimentos cirúrgicos, reduzindo a quantidade de drogas necessárias para anestesiar os pacientes. A técnica evoluiu e é considerada hoje uma sub-especialidade da acupuntura. “O atleta, devido ao seu bom estado físico e nutricional, geralmente responde bem à eletroestimulação. Por isso ela é indicada para o tratamento das lesões do esporte”, diz Liaw, adepto do método. “A eletroacupuntura oferece o ambiente ideal para a reparação de lesões nos músculos e tendões e de processos inflamatórios agudos e crônicos”, afirma.
Longe das pontadas
Em alguns casos, porém, a acupuntura não ajuda muito. “Em fraturas e rupturas do ligamento, a acupuntura não é indicada como tratamento principal, mas como um coadjuvante para aliviar a dor”, exemplifica Liaw. “Em casos mais graves, que envolvem cirurgia, inicio o tratamento de acupuntura no local a partir do segundo mês pós-operatório”, completa. “A acupuntura, quando feita em conjunto com a fisioterapia, sob a orientação de um ortopedista, traz resultados muito bons”, diz Barone. “Se o caso for agudo, como um entorse do tornozelo, por exemplo, vale a pena entrar com a medicação e a acupuntura. Em casos crônicos, a acupuntura sozinha pode resolver”, completa.
OCIDENTE E ORIENTE
:: SETE MIL ANOS DE HISTÓRIA
É difícil apontar a idade exata da acupuntura, mas os historiadores acreditam que ela surgiu há mais de sete mil anos, na China. De lá, viajou para o Egito antigo, o império romano e a Europa oriental. O primeiro registro da acupuntura no Ocidente data de 1810, em Paris. Os americanos conheceram a técnica em 1971, quando James Reston, um jornalista do New York Times, foi à China e teve de fazer uma cirurgia de apêndice de emergência. A anestesia foi feita com acupuntura, e a notícia das “agulhas milagrosas” correu a América. Nos últimos 50 anos, novas formas de estimulação, como a eletroacupuntura e a acupuntura a laser, foram criadas. Em 1977, o médico Ronald Melzack, que ganhou o prêmio Nobel por seu trabalho na área de tratamento de dor, correlacionou os pontos que os cientistas ocidentais vinham estudando com os pontos da acupuntura chinesa.
A acupuntura chegou ao Brasil pelas mãos e agulhas dos imigrantes orientais. Em 1961, foi fundada a Associação Brasileira de Acupuntura (ABA) e em 1984 os médicos acupunturistas do país formaram a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura (SMBA). Hoje a acupuntura é praticada em quase todos os países ocidentais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já deu seu aval à técnica, assim como o CFM (Conselho Federal de Medicina), que desde 1995 reconhece a acupuntura como especialidade médica no Brasil.
:: TIRA- TEIMA
Acupuntura dói?
Algumas pessoas nem sentem a agulha ser aplicada; outras comparam a sensação a de uma pequena mordida de pernilongo.
Quantas sessões são necessárias?
Depende. Alguns pacientes percebem melhora após a primeira sessão, outros podem levar semanas até verem os sintomas regredirem.
O efeito da acupuntura pode ser só psicológico?
Não. A acupuntura tem efeito em seres vivos não sugestionáveis, como os animais, e também em bebês. Nos últimos 20 anos, ela tem sido usada com sucesso no lugar da anestesia convencional em alguns procedimentos cirúrgicos.
De que tamanho são os pontos?
Liiaw W. Chao compara os pontos de acupuntura a alvos. “O estímulo pode ser aplicado em uma área de cerca de 0,5cm ao redor do ponto, mas quanto mais próxima do alvo for feita a estimulação, melhores os resultados”, diz.
De que material é feita a agulha?
Nos primórdios da acupuntura, as agulhas eram feitas de pedra. Depois passou-se a usar metais nobres como ouro e prata. “O ouro tonifica, a prata seda”, diferencia Alberto. Hoje as agulhas são feitas em liga de inox e são esterilizadas como se fossem material hospitalar.
É preciso parar de correr para fazer acupuntura?
“Se as cargas e o volume forem redimensionados durante o tratamento, não tem de parar de treinar necessariamente. O tratamento deve ser multidisciplinar”, diz Liaw. “Dependendo da lesão, até estimulo a correr um pouco. Num caso de dor na lombar, por exemplo, peço para parar dois ou três dias e depois pode correr em intensidade leve e com menor volume”, conta Alberto.
:: AS INDICAÇÕES
A Organização Mundial de Saúde, trabalhando em conjunto com o Centro Internacional de Acupuntura da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Shangai, apontou a acupuntura como sendo efetiva no tratamento das seguintes doenças, entre outras:
:: Dor aguda e crônica
:: Dor de cabeça e enxaqueca
:: Sinusite
:: Incontinência urinária
:: Dor na coluna (cervical, torácica e lombar)
:: Asma
:: Alergia
:: Náuseas e vômitos na gravidez
:: Fadiga
:: Ansiedade
:: Insônia
:: Artrite
:: Controle de vícios (bebida, cigarro)